Pimenta refresco

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Fico imaginando o quanto algumas pessoas são infelizes. E alimentam essa infelicidade ao criarem uma ilusão de si mesmas e caminharem nesse sentido, não de um encontro consigo mesmo mas sim com a imagem criada nesse mundo ilusório. Até aí tudo bem, o livre arbítrio existe e as pessoas têm autonomia pra decidir se serão “de verdade” ou apenas um espelhamento de um mundo fantasioso. Agora, envolver terceiros nessa arquitetura de ilusões é que é perigoso. E constrangedor. Mirem-se nos exemplos de pessoas que dão a vida pelo reconhecimento social, uma bobagem isso pois, na ordem natural das coisas, só se reconhece aquilo que é legítimo e sincero. Mas, com esse intuito, aquele que preza mais estar inserido em rodas sociais que não lhe pertencem, acaba se impondo como íntimo de pessoas que mal conhece. Ruim, inclusive, para quem é “usado” dessa forma. Quem navega por essas águas rasas acaba se afogando como se tivesse em pleno oceano. Alpinismo social já é uma evidência da falta de merecimento. Quem nunca leu um livro, não pode ter sucesso em um circuito intelectual. Quem nunca assistiu ou não entende uma peça artística, não consegue interlocução com as pessoas que têm sensibilidade e inteligência emocional. Quem, independente de riquezas materiais, não teve uma educação refinada, não consegue sair-se bem em grupos sociais específicos. A vida é assim. Não adianta almejar ser amigo da pessoa inteligente, do artista reconhecido ou da pessoa endinheirada para sentir-se dentro de um coletivo de pessoas que se identificam. É muito feio forçar a barra para sentir-se “dentro”. Mais feio ainda é o fato de isso só revelar o vazio de tal pessoa e que ela deve buscar dentro de si quem ela é de verdade. Não é o outro que vai lhe dizer quem ela é. E não é a aceitação dentro de um grupo ou outro que vai fazer com que o alpinista social se integre ao mundo e se sinta mais feliz. Portanto, fica aqui o conselho para quem vende a mão para abraçar a fama: não force amizades que não lhe pertencem e não queira entrar em um mundo que não lhe diz respeito. Primeiro, descubra aonde você se encaixa nesse mundo. E faça ali a sua cama. Só assim terá descanso. E paz consigo mesmo.

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